domingo, 9 de abril de 2017

PECADO CAPITAL OU "DINHEIRO NA MÃO É VENDAVAL"



Um outro grande sucesso disponibilizado em box e que eu revi foi a novela "Pecado Capital". Lançada em 1975,  escrita às pressas depois que "Roque Santeiro", de Dias Gomes (na época, marido de Janete), foi proibido pela Censura, após vários capítulos gravados. O jeito, enquanto esperava por um novo folhetim, era reprisar o grande sucesso "Selva de Pedra", reaproveitar todo o elenco já contratado para Roque e até os cenários (a casa de Salviano era a de Porcina na novela abortada e que só viria à tona, com novo elenco, dez anos depois)!

O enredo principal - o love story - se passava no subúrbio do Méier, bairro no qual residiam José Carlos Moreno Carlão, motorista de táxi (Francisco Cuoco) e Lucinha, operária (Betty Faria). Nessa época não havia Projac e as cenas eram gravadas nas ruas, incluindo Lucinha e Emilene (Elizângela) - uma mistura de Emilinha com Marlene, porque seus pais eram fãs cada um de uma cantora diferente - andando de trem na Central do Brasil e caminhando pela estação do Méier. Houve tomadas do Jardim do Méier (lá mesmo, onde o Bispo Macedo, alguns aninhos depois, faria as primeiras reuniões da futura Igreja Universal do Reino de Deus) e do antigo Hospital Municipal Salgado Filho (onde o pai de Carlão, Raimundo (Gilberto Martinho) -  ficou internado), bem antes das obras de atualmente. Também aparece a antiga fábrica Nova América, que servia de cenário para uma das indústrias de Salviano Santiago (Lima Duarte), atualmente bastante modificada como Shopping Nova América. Eu ia na antiga comprar tecidos com a minha mãe, por essa época... Um outro bairro que aparece bastante nas cenas é Madureira, incluindo o antigo Mercadão. Boni tinha receio de os telespectadores estranharem o realismo da novela e pediu a Daniel Filho (o diretor) que regravasse tudo, mas como a aceitação foi ótima, já nos primeiros capítulos, não foi preciso. Em 75, meu povo, fusca de duas portas e sem ar era táxi.

O dilema de devolver ou não uma mala cheia de dinheiro (800 mil) encontrada no táxi de Carlão, fruto de um assalto cometido por um casal (Rosamaria Murtinho e Zanone Ferrite - precocemente falecido em 1978) e a paixão entre ricos e pobres (Silviano e Lucinha) era a espinha dorsal da novela. Na foto, Eunice e Miguel, futuros amantes e assaltante/cúmplice.


O casal protagonista também não deixou de mostrar a forma como a mulher era tratada por um homem machista, infiel, possessivo e violento. Era na base do puxão e do tapa que José Carlos se relacionava com Maria Lúcia e foi assim, sempre partindo para a ignorância, que questionou o fato de ela ser modelo da agência de Nélio (Dênis Carvalho), convidada depois de ter sido descoberta por ele  enquanto fazia filmagens para um novo comercial da empresa de Salviano (Centauro), mas verdade seja dita: o moço também, nas horas românticas, até contratava serenata para ela, levando Luís Melodia para cantar em sua janela a clássica "Juventude Transviada". A ascensão de Lucinha se dá por ela ingressar no mundo da zona sul, residindo perto da praia, e novamente temos o namorado/noivo/futuro marido (como em Selva de Pedra, post anterior a este) implicando com o trabalho da mulher, pois Silviano não queria que ela trabalhasse como manequim (hoje  modelo) depois de casada.



Segundo Janete Clair, surpreendentemente o par Betty e Lima agradou ao público e eles terminaram juntos. O de Cuoco acaba casando com Eunice (Rosamaria Murtinho), a mulher que havia participado do assalto e que estava sendo chantageada pelo amante Miguel (Zanone), que ameaça contar tudo ao seu marido ,Ricardo (Moacyr Deriquem). Na versão marido de madame da zona sul, saiu o bigodinho, mas Carlão manteve as costeletas - moda nos anos 70.



Nas tomadas dos personagens moradores do além tunel, Copacabana era a preferida, além do centro do Rio. Observem a placa do fusca de Rosamaria ainda com o antigo estado da Guanabara - GB, que já havia mudado há um ano!


Um dado  interessante foi a criação do Dr. Percyval (Milton Gonçalves), psicólogo renomado, contratado para cuidar de Vilma (Débora Duarte), que não aceita a morte da mãe Mafalda (Isolda Cresta)  e nem que ela seja substituída por Lúcia. Foi o primeiro papel de Milton em que ele não fazia um personagem pobre, como sempre era destino dos negros, embora o médico não tivesse família e tivesse sido proibido, pela censura, de desenvolver um romance com Vitória (Tereza Amayo), a filha mais velha de Silviano.
A censura, aliás, também tratou de unir o personagem gay Roger (Nestor de Montemar) com a "solteirona" Djanira (Maria Pompeu).
Ousada, igualmente, foi a inserção de uma prostituta na tela da família brasileira no horário das 20:00 que vivia sendo chantageada pelo gigolô e levando, clara, tapas dele, mesmo já morando com o pai e o irmão, como assim o quis a Dona Censura. Quando Elisete (Leina Krespi) aparecia, lá vinha o Wando cantar: "Moça, me espere amanhã... sei que já não és pura...". Na foto, está outro personagem fora do comum, o taxista e amigo de Carlão, Marciano (Lutero Luiz), que vivia dizendo ver discos voadores, tomando uma antiga Brahma (sim, passam os anos e nas novelas cerveja ainda é a bebida dos suburbanos) - observem o rótulo.  Agora, imaginem se isso seria possível hoje, com a Lei Seca, dois taxistas tomando cerveja na hora do almoço... 


Os sete filhos de Salviano Santiago, que não davam a mínima para o velho (como chamavam um senhor de 50 anos na época!), raridade era juntá-los, como estão na foto abaixo: Luiz Armando Queirós, o playboy, Tereza Amayo, a casada infeliz, Marco Nanini, o tecnocrata que morava nos EUA, Débora Duarte, a pirada, João Carlos Barroso, que vivia encostado em casa e Lauro Góes, aliás, cursava Faculdade de Letras na UFRJ ao mesmo tempo que em que gravava a novela. Hoje, parece que ele é professor de lá. Na trama, ele se envolve com Emilene, mas resolve ficar com a batina, talvez para evitar problemas com a igreja em plena ditadura...
Após a ascensão social (a emergente Lucy Jordan - nome de guerra de Lucinha), ela tira a irmã mais nova da fábrica e a matricula em um curso noturno. Por isso, passamos a ver Emilene andando para cima e para baixo com uma prancheta na mão. Não sabe o que é uma prancheta?

A cena final da novela, gravada no metrô do largo da Carioca, ainda em construção, é emblemática. A morte de Carlão, quando ele resolve devolver o dinheiro, as cenas do casamento de Lucinha e Salviano tendo como fundo musical o excelente samba e a linda voz de Paulinho da Viola. A Globo fez um remake, mas eu não gostei, a começar pela abertura, com o samba assassinado por Alexandre Pires. 



segunda-feira, 3 de abril de 2017

EU VOLTEI, AGORA PARA FICAR COM SELVA DE PEDRA

Eis-me aqui para falar de novelas de novo, pois é, eu sou mesmo viciada no box de novelas antigas. Sabem qual estou assistindo atualmente? Avenida Brasil!

Falemos de Selva de Pedra, escrita por Janete Clair, naquela época em que não havia essa coisa de uma novela escrita a mil mãos, dona Janete sentava sozinha na máquina de escrever manual e mandava ver. Para começar, a abertura, que situava os personagens vindos do interior (Francisco Cuoco, Mário Lago, Ana Ariel, Dorinha Duval, Tessy Calado) para a cidade grande. A abertura mostrava cenas urbanas de um Rio de 1972, interessante que tinha até gente fazendo sinal de paz e amor na rua, no melhor contexto do movimento hippie. 
Contaram a quantidade de fuscas, minissaias, costeletas, etc, que aparecem? O interessante é notar que as tomadas de abertura focalizaram o centro do Rio, com pessoas de todas as classes sociais, bem como trouxe cenas da zona sul. De fato, a novela mostrava essa luta entre as classes, os personagens ricos (interpretados por Dina Sfat, Carlos Eduardo Dolabela, Gilberto Martinho, Arlete Sales, entre outros) e os pobres, liderados pelo personagem Cristiano Vilhena, de Francisco Cuoco, além de Regina Duarte, Mário Lago, Ana Ariel, Dorinha Duval, Carlos Vereza e outros).


Da história acho que todos lembram, Cristiano assassina um rapaz sem querer, é ajudado pela personagem de Regina Duarte, os dois se casam, vão para o Rio e lá, em uma pensão modesta do Catete, conhecem o ambicioso Miro, show de interpretação de Carlos Vereza.

Os dois tramam a morte da esposa de Cristiano (Simone), quando percebem que Fernanda (Dina Sfat) está apaixonada por Cristiano, ela descobre, finge-se de morta e depois retorna com uma peruca loura, dizendo ser a irmã da defunta, a internacional e famosa (não existia o termo celebridade naquela época) Rosana Reis, a escultora.


Essa novela foi um grande sucesso de audiência, chegando a dar 100% de IBOPE no último capítulo, quando Simone, que estava aprisionada por Fernanda, entra no tribunal, de cadeia de rodas, no qual Cristiano está sendo julgado. 

Assistindo ao dvd, algumas coisas me chamaram a atenção: a personagem de Dina namorava Dolabela e levava tapa na cara o tempo todo, incrível como a violência contra a mulher era naturalizada nestes folhetins do tempo do onça.

Glória Pires também participou na sessão dos pobres, devia ter uns 9 anos.

Outra que fez uma participação especial (na cena dos ricos) foi Hildegard Angel, que perdera o irmão, Stuart, assassinado pela ditadura um ano antes...

Uma outra coisa escabrosa, talvez por causa da censura (que exigiu que Cristiano e Simone se casassem antes de viajarem de cidade) foi Simone Rosana Reis desistir da carreira para cuidar do marido...

No próximo post vou comentar Pecado capital, eu juro que não irá demorar 7 anos como da outra vez. Esse blog é tão antigo, que nem existe mais esse design, mas estou com pena de trocar pelos modelos mais novos, simpatizo com as bolinhas.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

IRMÃOS(1970), DANCY'N DAY'S (1978) E O BEM AMADO (1973)

Depois de um longo e tenebroso inverno, eu voltei agora pra ficar e continuarmos a tratar de Memória, de História, da nossa história cultural. 
E podemos começar comentando os dvds de novela, que foram lançados em box? Comprei os que me interessou mais, embora a variedade seja relativamente grande... vamos de Irmãos Coragem (1970), Dancy'n Days (1978), O Bem Amado (1973), Selva de Pedra (1973) e Pecado Capital (1975)? Já assisti aos dois primeiros na íntegra, atualmente termino o terceiro, já engatei os dois últimos, nessa ordem, para assistir.
Rita Lee disse, uma vez, que novela é cultura. Fechei de novo com ela. Ainda mais escrita por autores que vieram de uma tradição do teatro ou do radio-novela. Estamos falando da teledramaturgia de Janete Clair e Dias Gomes e do herdeiro mais direto de Clair, Gilberto Braga.
Irmãos Coragem, como apresentou Daniel Filho na abertura do dvd, foi gravado no local onde hoje funciona o Barra Shopping. Dá para imaginar como era a Barra antigamente assistindo à novela, inclusive existe uma cena na qual a personagem Ritinha (Regina Duarte) está por lá e vemos um único prédio sendo construído. Loucura!
O elenco da novela que pretendeu conquistar também o público masculino com a sua estória meio bang bang, na qual irmão honestos lutam contra a maldade de um coronel. Um deles (Tarcísio Meira) encontra um diamante, o que provoca uma grande perseguição a esta sua riqueza.

Na cena urbana, temos Duda (Cláudio Marzo), que só poderia ser Flamengo (a Globo acha que todos os cariocas são).


É interessante perceber algumas questões de 40 anos atrás. Televisão inexistia, no máximo uma vitrola portátil, um rádio, um telefone que só podia ser usado com telefonista... e talvez o melhor de tudo; o show de Glória Menezes interpretando 3 personagens muito distintas, Lara, Diana e Márcia: a primeira, reprimida ao extremo, a segunda, uma feminista devassa e a terceira, um equilíbrio entre as duas. E todos sempre com um cigarro na mão! (Abaixo, Diana e João Coragem).
Nesta época não existia o Projac e as cenas externas eram gravadas na rua. Por isso, é interessante observar como se constituía a cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, que em Dancy'n Days, de Gilberto Braga, elege Copacabana como centro de atenções para narrar a saga de Júlia Lopes (Sônia Braga), ex-presidiária que luta para conquistar o amor da filha (Glória Pires), criada por sua irmã (Joana Fon) que deu um golpe do baú e mora na Avenida Atlântica. O papel de Sônia era para ter sido de Betty Faria, que recém separada de Daniel Filho, não quis participar da novela que o seu ex dirigia. Também o papel de Joana Fon era de Norma Benguel, que gravou alguns capítulos, mas logo abandonou a novela.
Percebi que a casa de Cacá (Antônio Fagundes) ficava mesmo era no Leblon, não em Copa, naturalmente já veio abaixo há tempos.
Atualmente reprisada pelo Canal Viva, lançou a moda da discoteque pegando o nome emprestado de Nelson Motta, que, segundo afirmou em Noites Tropicais, ao tentar recriar o ambiente no Morro da Urca, sofria por explicar às pessoas que os artistas da novela não estariam lá...
A que estou vendo atualmente é O Bem Amado. Um dos melhores textos de novela já escritos, sátira em pleno anos 70 de ditadura militar, sendo Dias também comunista de carteirinha. 
A primeira novela a cores das 22 horas trazia Odorico Paraguassu (Paulo Gracindo), um político corrupto da imaginária Sucupira, que fora casado com uma Cajazeira já falecida, sendo, atualmente, amante das três irmãs solteiras da cidade que viviam hipocritamente debaixo do slogan da família, da moral e dos bons costumes. Quem não se lembra que Odorico engravidou Dulcinéia (Dorinha Duval), arquitetando um plano terrível para que ela casasse com Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), que havia feito voto de celibato? Essa é uma das menores canalhices que ele aprontou na novela.
Havia uma oposição entre os Cajazeiros e os Medrados, incentivada por Odorico que tenta de todas as formas inaugurar o cemitério e recuperar a imagem arranhada pela oposição, que denuncia seus gastos abusivos. Para isso, manda vir para a cidade o jagunço Zeca Diabo, na verdade já regenerado, que havia virado assassino em função de slavar a honra de sua irmã. 

Fazem parte dos que se opõem a ele o jornalista interpretado por Carlos Eduardo Dolabela, que se apaixona por Telma (Sandra Brea), a delegada Medrado (Zilka Salaberry) e o médico Juarez (Jardel Filho), que para a desgraça de Odorico, se envolve com Telma. O teor político desta novela é impressionante, com o doutor Juarez liderando motins, passeatas e uma série de rebeliões que incomodavam por demais a censura, que também não gostava nada do assanhamento das irmãs Cajazeiras com o Prefeito...
Segundo Dias Gomes, Paulo Gracindo não queria interpretar Odorico e sim o personagem de Jardel, por temer que o personagem Tucão, de Bandeira 2, o estereotipasse. Também Daniel Filho, na introdução do dvd, afirma que por ter sido a primeira novela em cores, algumas cenas ficavam esgaçadas pelo contraste de cores.
Há destaque para dois atores negros. Pela primeira vez Ruth de Souza não faz uma empregada doméstica, a sua Chiquinha é assistente do Doutor Juarez... e Zelão, pescador e seu marido, deseja voar, numa alusão clara a libertar-se das opressões...

A primeira cena, aliás, se divide entre a festa de Iemanjá e a da missa católica, a igreja fica vazia do dia 2/2...
Embora a novela tenha sido gravada em Sepetiba, havia algumas cenas no Rio de Janeiro e em Salvador. Vemos uma Ipanema muito diferente, assim como a Copacabana de 1973.
Já andei dando uma olhada nas próximas. A abertura de Selva de Pedra é muito interessante, já viram?

 E Pecado Capital recuperou a antiga fábrica Nova América, hoje, Shopping. Era lá que as irmãs Lucinha (Betty Faria) e Emilene (Elisângela) trabalhavam, mas isso é papo para um próximo post.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

UMA REVISTA CHAMADA BUNDAS



Durante os anos de 1999 e 2000, circulou uma maravilhosa revista, idealizada por Ziraldo e Jaguar, chamada Bundas.

Era pura provocação à Caras. O slogan era "Quem coloca a cara em Bundas não coloca a bunda em Caras". Mais uma dos geniais autores de O Pasquim.

Eu não perdia uma e tenho a minha coleção até hoje.

Era de uma inteligência só. Vejam os artigos do exemplar acima, por exemplo, com menção até a Oswald de Andrade! Sem contar a ironia de Hitler na Ilha de Caras.

Infelizmente, a revista não teve fôlego para continuar, por falta de anunciantes! Parece que as pessoas tinham vergonha de chegarem em uma banca e pedirem a Bundas.

Besteira. Há tanto pudor, tanto pudor! Já li sobre isso nas peças de Nelson Rodrigues.

Finalizo meu último post do ano com essa homenagem a Bundas, voltarei ao tema.

Estou de mala e cuia prontas para uns dias em Cabo Frio.

Feliz Natal!

Feliz 2010!

Espero que as minhas plantinhas não morram!!!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

CARÍCIA, UMA REVISTA PEQUENA



Nos anos 60, as revistas começaram a crescer em tamanho. Perseguiam o comprimentos da Cruzeiro, da Realidade... a Intervalo, por exemplo, que já mereceu um post por aqui, entra nos anos 70 com centímetros a mais. Da revista Amiga, então... nem é necessário falar. Todos sabem como era imensa.

No meio das gigantonas, eis que surge uma pequena, em meados da década de 70 chamada singelamente de Carícia.

Foi um sucesso. Direcionada às adolescentes, que não possuíam publicação específica, falava da primeira vez, de moda, etc. Não lembro se tinha fotonovela. Mas devia ter, toda a revista, naquela época, imitava a tele-novela, na fotonovela.

Na escola, em que eu fazia o primeiro grau (que já foi ginásio e agora chama ensino fundamental, não sei para que mudam tanto o nome, se o mais importante, a qualidade, continua precária), minhas colegas sempre discutiam os assuntos da Carícia. O primeiro beijo, o primeiro isso, o primeiro aquilo. Lá, tudo era o primeiro.

As mulheres mais velhas tinham as suas revistas: Capricho, Nova, Grande Hotel, Romance Moderno... sem contar as especializadas em artistas como Sétimo Céu, Romântica... e, agora, nós tínhamos a Carícia. O curioso era que a capa da little trazia sempre só o rosto da manequim (naquela época se chamava assim, modelo ou manequim, não existia a palavra top), já a revista Nova, trazia a mulher de corpo inteiro, sempre com a roupa bem decotada. Infiram...
Grandes coisa, né? Mas era novidade. Eu, particularmente, preferia a Pop, que colecionava com meu minguado dinheirinho de mesada. Depois a Pop acabou e muitas revistas imitaram a Carícia. Nem sei se ainda existe! Cartas para a redação.
Um abraço!

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

ALÔ, ALÔ, TERESINHA








Acabei de chegar do cinema, assisti ao documentário sobre o Chacrinha, um filme de Hoineff.

Eu preferiria ver o Chacrinha através de uma visão mais histórica, que pecoresse a trajetória dele, desde o rádio, etc. Mas talvez o modelo escolhido pelo diretor tivesse mais a ver com o estilo anárquico do Velho Guerreiro.
Saí um pouco com a sensação de que o argumento era coisa de homem... parecia que as preocupações maiores ali eram saber sobre a vida sexual das chacretes (e seus destinos), sobre os calouros buzinados (incrível como ele localizou alguns!) e colher uma ou outra opinião de cantores. Além de fofoca também percorrer a vida do próprio Chacrinha e sua paixão por Clara Nunes e por algumas das chacretes.
A pergunta final era: afinal, que era a Teresinha? Parece que era a irmã de Rosemary (você sabia que a Rosemary tinha uma irmã?) que era a garota propaganda das Casas da Banha, que patrocinava a Buzina do Chacrinha.De qualquer maneira, vale a pena ver o filme. A face meio perversa do Abelardo Barbosa está lá em buzinar e traumatizar calouros que, muitas vezes nem abriam a boca e já ganhavam o troféu abacaxi, também na generosidade em dar fama às chacretes (às quais ele deu nome, e promovia em seus programas) e a alguns cantores, que até se emocionaram durante o depoimento.
De fato, o Chacrinha era tropicalista, porque misturava Ney Matogrosso com Agnaldo Timóteo, Cazuza com Nelson Ned... e depois dele, nenhuma outra dançarina conseguiu tal notoriedade só por ser dançarina... as atuais nem têm nome e não marcam sua presença nos programas.
Penso que o espírito do filme ficou na participação de Biafra, cujo vídeo já é um dos campeões do You Tube. Ao cantar "Voar, voar..." e ser atropelado por uma asa delta, ele morre de rir e diz: "O Chacrinha colocaria no ar". E entrou.

domingo, 16 de agosto de 2009

ANILZA LEONI




Li hoje que Anilza Leoni tinha morrido. Apesar de a internet já ter anunciado isso desde o dia 07/08, eu e a minha velha mania de ler jornais acumulados fomos sendo informados da notícia a conta gotas... primeiro li no Ancelmo Góis (O Globo) que ela estava internada em estado grave. E, depois, na seção obituária, que morrera em 06/08.


Conheci Anilza em 1973. Eu tinha oito anos e ela frequentava a casa da minha tia Nina, que era casada com Nilo Chagas, integrante do Trio de Ouro, com Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. A minha família sempre foi ligada em música. Um primo meu, de nome Marcos, casou com uma das filhas de Ataulfo Alves. Meus primos todos gravaram compactos e LPs, um deles até fez relativo sucesso cantando em inglês no grupo Manchester, com a canção "My dear", que foi tema de Betty Faria na novela Duas Vidas, em 1976... De modo que, tanto a minha casa, como a de meus parentes, eram um verdadeiro entra e sai de artistas, além dos já citados, The Fever's, Renato e seus blue cap's e outros. Acho até que Carlos Imperial e Simonal já andaram por lá também.


Para quem não se lembra ou nunca ouviu falar de Anilza Leoni, ela começou a carreira como vedete, na década de 50. Seu último trabalho na tv foi em uma participação especial em Casos e Acasos, que por acaso tive a oportunidade de ver. Talvez o seu trabalho mais conhecido tenha sido em A gata comeu, de 1985, da Rede Globo. Era extremamente bonita e delicada (como pode ser verificado nos vídeos postados aqui e nas fotos, reparem que em um deles, "Você é de morte", de 1960, em que ela canta um rock com Ankito, Simonal aparece como figurante no conjunto logo atrás da dupla) por isso, foi eleita como uma das Certinhas do Lalau por 3 vezes, isso em uma época que não havia retoques cirúrgicos nem virtuais para tornar as mulheres belas. Ou se era ou não. Lalau era o apelido do jornalista e humorista Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto), que inspirado numa frase do pai, que quando considerava uma cidadã jeitosa, exclamava: "Olha só que moça mais certa!" criou "As certinhas do Lalau", durante 1954 a 1968, tendo eleito 142 "certinhas". Dentre elas, Anilza.


Em 1973 eu adorava fazer o símbolo do paz e amor para desconhecidos na rua e para quem aparecesse na minha frente. Minha mãe não gostava nada da idéia e me dava beliscão em cima de beliscão. Ela dizia que não sabia de onde eu tinha tirado aquilo, que só podia ser da tv. Mas eu via outras coisas na tv e não imitava. E sempre gostei do paz e amor.


Acontece que a era Médici não era muito chegada em paz e amor. Eu nem fazia idéia do perigo que corria quando colocava o dedo em V como uma hippie no meio da rua. Alguns me correspondiam no gesto. Outros riam, desconcertados. Alguns ficavam sérios e outros me fuzilavam com os olhos. De modo que minha mãe me proibiu de fazer o tal gesto...


Quando Anilza e seu marido, Álvaro, apareceram na casa da minha tia eu fiquei na minha com relação ao gesto do paz e amor. Mas desandei a mostrar outras facetas do meu lado "vai ser gauche na vida" drummondiano: falei que era fã de Vianinha, dos Secos e Molhados e da canção Gita, de Raul Seixas.


O marido de Anilza era um chato. Vivia me reprimindo. Dizia que eu deveria era gostar de cantores de verdade como Tito Madi. Que Raul Seixas e Secos e Molhados eram transviados e Vianinha, terrorista, comunista. Eu não sabia o que era transviado, nem terrorista, nem comunista. Mas pensava que se eles eram isso, devia ser coisa boa. E não fazia idéia de quem era Tito Madi. E dizia assim pro Álvaro Leoni: "Ah, mas o Secos Molhados e Vianinha são um barato!"


Álvaro ficava com os cabelos em pé. Dizia pro meu pai que barato era coisa de drogado. Que eu era uma criança muito da esquisita. E por aí vai... Ele não ia muito com a minha cara. Anilza não era de falar muito. Nunca entendi porque ela tinha casado com um cara tão chato. Ela era toda gentil. Todos a tratavam como uma rainha na casa da tia Nina, ela tomava muito café e fumava, silenciosa. De vez em quando olhava pra mim e sorria, quando eu falava as minhas loucuras precoces. Ela gostava de poesia e me deu uns poemas pra ler um dia. Verdade seja dita, da família, eu fui a única que mereceu a atenção dela. Depois do meu primo, claro, com o qual ela gostava muito de conversar. Primo Carlos, já falecido. Descobri depois que ele era apaixonado por ela. Depois da sua morte, herdei uns livros dele e, dentre eles, um de Paul Valèry cujos poemas traziam o nome de Anilza. Li algumas cartas dele pra ela também...


Mas o que interessa aqui é escrever que a Anilza me ajudou um dia. Apesar da proibição da minha mãe de eu fazer o tal Paz e Amor pras pessoas, eu continuava a fazer isso escondido. Meu ponto preferido para a difusão dso sinal era na casa da minha tia, sentada em cima do muro. Para os passantes, eu mandava o sinal com os dedos. A maioria nem ousava corresponder. Mas alguns gostavam e faziam pra mim também. Isso dos 8 aos 10 anos de idade. Um belo dia, Anilza me flagrou no ato. Ela ficou meio perplexa, lembro que olhou ao redor, nervosamente. Se aproximou de mim e disse baixinho: "Não faça isso... é perigoso... e feio.". Levei um susto. Pensei que ela me entregaria. Mas ela sorriu pra mim, mais uma vez. E nunca falou nada pra minha mãe.


Por isso, fiquei triste com a morte da minha cúmplice. Nunca mais a vi, só em 1985, no enterro do meu primo. Soube pela Obituário que ela estrearia uma peça sobre Mário Quintana com Monique Lafond e Tamara Taxman, entre outros. Seus colegas de profissão escreveram: "Parece um sonho que ela tenha vivido!", inspirados na leveza de Quintana. Ela era leve, mesmo. Muito leve, leve, pousa...


Videos com Anilza no You Tube

http://www.youtube.com/watch?v=3Zsu85sMrYM&feature=related


http://www.youtube.com/watch?v=dS1OiM-4gbg&feature=related